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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Comissão da Verdade e os argumentos cínicos da direita


Na avaliação de Nilmário Miranda, ex-secretário nacional dos Direitos Humanos no governo Luíz Inácio Lula da Silva, a aprovação da Comissão da Verdade pela Câmara dos Deputados (dia 21) foi o quarto momento da redemocratização desde a Lei de Anistia (1979), a criação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos (1995) e da Comissão da Anistia (2001).

É um longo período, que pode ser contado em décadas desde 1979, no qual se repete a lentidão dos passos progressistas e democráticos no Brasil, travados pelo freio representado pelo medo conservador da verdade, medo que impõe negociações e delongas.

Na questão da apuração dos assassinatos políticos, tortura e atentados aos direitos humanos cometidos durante a ditadura militar (1964-1985), estes interesses estão vivos, atuantes e têm representação no Congresso Nacional, como se pode ver mais uma vez na tramitação e demora para a aprovação da Comissão da Verdade, embora ela exista e funcione em cerca de 40 países que fizeram o trânsito de regimes ditatoriais para a democracia.

A resistência contra a apuração e revelação dos responsáveis por aquele passado tenebroso é diretamente proporcional à força política ainda mantida por setores da classe dominante envolvidos com a repressão política. O passado destes setores é a fonte do medo à verdade. Eles foram a face civil da ditadura e estiveram envolvidos no mínimo com o financiamento do aparato repressivo e, evidentemente, usam todo seu poder para impedir que a verdade da tortura e assassinato políticos seja exposta para a nação.

Há também aqueles que tergiversam e querem uma apuração “imparcial” que envolva também militantes da resistência democrática que pegaram em armas contra a tirania. O deputado da direita Jair Bolsonaro tentou evitar a obrigatoriedade de militares atenderem às convocações para depor. Foi derrotado pelo plenário na votação da Comissão da Verdade. O ex-ministro Jarbas Passarinho, importante quadro da direita militar desde a década de1950 e expoente da ditadura militar, quer incluir a apuração da atividade dos guerrilheiros no Araguaia, opinião hipócrita, primeiro porque a própria ditadura escondeu os corpos dos guerrilheiros presos e assassinados por agentes da repressão que, mais de 40 anos após aqueles acontecimentos, insistem em ocultar e manter em segredo a barbárie da repressão e o fim dado aos restos mortais daqueles heróis. E depois porque o alvo de Passarinho é o Partido Comunista do Brasil. Qual o significado de sua opinião? Não havendo guerrilheiros para julgar pois foram assassinados e seus corpos escondidos, ele quer colocar em julgamento o PCdoB, que dirigiu a resistência democrática e patriótica no Araguaia. Passarinho esconde, por traz do biombo da “imparcialidade”, um sólido sentimento revanchista, anticomunista e antidemocrático.

Alegações conservadoras como estas repercutem na Câmara dos Deputados. A deputada comunista Jandira Feghali (PCdoB-RJ) qualificou-as, corretamente, como cínicas. “Tivemos, lamentavelmente, que ouvir argumentos cínicos daqueles que pretendem tratar da mesma forma os atos criminosos cometidos durante o período da ditadura militar" e a resistência contra a ditadura, acusou a parlamentar.

A Comissão da Verdade terá sete membros nomeados pela presidente Dilma Rousseff, mais outros 14 servidores do governo federal. Seu objetivo, expresso na lei que a criou, será, entre outros, esclarecer as graves violações de direitos humanos ocorridas em seu período de investigação, que vai de 1946 a 1988 mas cujo foco é a ditadura, de 1964 a 1985; esclarecer de maneira circunstanciada os casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e sua autoria; identificar e tornar públicos as estruturas, os locais, as instituições envolvidas naqueles crimes, incluindo suas eventuais ramificações nos diversos aparelhos estatais e na sociedade; recomendar a adoção de medidas e políticas públicas para prevenir violação de direitos humanos e assegurar sua não repetição, promovendo a efetiva reconciliação nacional.

Suas limitações são previsíveis. A principal delas será o impedimento de julgar ou criminalizar os torturadores e assassinos políticos da ditadura, protegidos pela Lei de Anistia e pela interpretação vigente que acatou a proteção aos chamados “crimes conexos" que figura naquela lei. Mesmo assim, sua constituição – que agora depende de aprovação pelo Senado – é um grande passo democrático. A Comissão da Verdade vai identificar os responsáveis por aqueles crimes, expondo-os ao conhecimento do país. Se efetivamente isto ocorrer, corresponderá na prática a um julgamento e uma condenação morais da ação criminosa daqueles agentes da repressão política.

Outro avanço é representado pela determinação de propor ações contra a tortura que ainda ocorre em delegacias brasileiras, uma herança perversa que se mantém justamente pela impunidade que protege aqueles que cometem violências contra presos que estão sob custódia do Estado.

Além disso, há uma promessa implícita na aprovação da Comissão da Verdade, expressa pela esperança manifestada por Nilmário Miranda de que ela não encerre o processo nem seja a última página da transição, mas um passo no rumo do estabelecimento da Justiça – e fortalecimento da democracia, pode-se agregar. Esperança com partilhada por outro ex-secretário nacional dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, para quem a revelação daqueles casos escabrosos poderá levar o Judiciário a uma nova jurisprudência, permitindo a punição dos torturadores e assassinos políticos. Este será um novo passo e, dada a resistência conservadora cúmplice daqueles crimes, uma nova luta.

sábado, 27 de agosto de 2011

50ª Caravana da Anistia: Manuela defende Comissão da Verdade


No ano em que a Comissão da Anistia comemora 10 anos e no dia em o Rio Grande do Sul celebra os 50 anos da Campanha da Legalidade, Porto Alegre sediou, nesta sexta-feira (26), a abertura da 50ª Caravana da Anistia. A deputada Manuela d’Ávila (PCdoB-RS), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, presente ao evento, disse que a criação da Comissão de Verdade é medida urgente que converge com as ações da Comissão de Direitos Humanos, da Comissão da Anistia e com a história do Brasil.O presidente da Comissão da Anistia, Paulo Abrão, lembrou que “não por acaso estamos em Porto Alegre, com a Caravana, para anistiar mais gaúchos que deram suas vidas a uma causa de todos nós. Estamos aqui para celebrarmos duas ações fundamentais para a história do nosso país, para a história da nossa democracia”, disse.

Abrão elogiou a atuação de Manuela na Comissão de Direitos Humanos, destacando que “a Manuela é a síntese dos ideais daqueles que enfrentaram tudo o que a ditadura representou. Tenho certeza de que muitos dos que deram suas vidas naquela época pelo que vivemos hoje estariam orgulhosos de ver o papel que ela vem desempenhando não apenas à frente da CDH, mas em todas as transformações pelas quais o Brasil está vivendo”.

Manuela defendeu a aprovação da Comissão da Verdade, afirmando que “os jovens têm o direito de conhecer sua história. Aqueles que foram torturados, tratados de forma desumana e que abriram mão de suas vidas em nome de um ideal coletivo merecem justiça”, defendeu.

Durante o encontro, a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, que é gaúcha como Manuela, também defendeu a implantação da Comissão da Verdade. “Esse é um compromisso da presidenta Dilma e é a sequência de uma série de ações que vivemos há anos. Precisamos fazer com o Estado reconheça seus erros e que, acima de tudo, repare-os”, afirmou.

Ao final, Manuela, Abrão e Maria do Rosário entregam ao filho do ex-presidente João Goulart, João Vicente Goulart, a anistia política ao seu pai. “Poder entregar a anistia a um dos grandes expoentes da nossa história é um marco. Mas como Jango, milhares de brasileiros anônimos doaram suas vidas na luta pela democracia, contra a tortura, contra a opressão. Nossa história é, portanto, escrita por Jango e Brizola, mas especialmente por anônimos, que sustentam a coletividade que dão força às lutas”, destacou Manuela.

A Ditadura Militar no Brasil foi vivida entre os anos de 1964 e 1985. Neste período, milhares de pessoas sofreram com a repressão, com o estado de exceção, com a tortura e tantas outras práticas desumanas. Nesta sexta-feira, 35 gaúchos tiveram seus pedidos de anistia política analisados. Ainda existem milhares em todo o país esperando por esta ação do Estado.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Senadores temem retrocesso no debate sobre Comissão da Verdade


Com a troca de Nelson Jobim por Celso Amorim no Ministério da Defesa, congressistas temem o retrocesso das negociações sobre a criação da Comissão da Verdade para investigar crimes da ditadura (1964-1985) e sobre o sigilo eterno de documentos.

Na base de apoio da presidente Dilma, há setores preocupados com a possibilidade de Amorim ser contra a abertura total dos documentos do período --como foi defendido pelo Itamaraty.

"Jobim estava na linha do acesso à história. E o Ministério das Relações Exteriores trabalha com o pé atrás sobre o acesso a fatos relacionados à defesa do país. Espero que o ministro pegue o sentimento do acesso total", disse o senador Walter Pinheiro (PT-BA).

Para a oposição, a escolha de Amorim prejudica as negociações com o Congresso diante do "viés esquerdista" do ministro.
"Jobim estava negociando, essa turma [do PT] já quis rever a Lei da Anistia", disse o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

Se ainda estivesse no cargo, Jobim teria encontro com a bancada do PSDB no Senado na terça-feira (9) para discutir a Comissão da Verdade.

Em defesa de Amorim, o presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, Paulo Paim (PT-RS), disse que o ex-ministro vai manter o diálogo "com todos os setores" para que a comissão seja instalada.
Por Gabriela Guerreiro