O professor Romualdo Pessoa Campos Filho é um dedicado
pesquisador da Guerrilha do Araguaia. Esse baiano de Alagoinhas, de 56 anos de
idade, se emprenhou na região e saiu de lá com um farto material para a sua
pesquisa que resultou na dissertação de mestrado publicada na obra “Guerrilha
do Araguaia – a esquerda em armas”, já em sua segunda edição pela editora Anita
Garibaldi.
Por Osvaldo Bertolino*, no Portal Mauricio Grabois
Agora ele volta ao tema para a sua tese de doutorado, que
deve ser defendida em novembro e igualmente se transformar em mais livro sobre
o tema.
Formado em História pela Universidade Federal de Goiás, após uma ativa passagem
pelo movimento estudantil, tendo sido diretor da UNE entre os anos de 1984 e
1986, Romualdo Pessoa Campos Filho é professor de Geopolítica no Instituto de
Estudos Socioambientais (IESA) da mesma Universidade e membro da Comissão de
Altos Estudos do Memórias Reveladas – Centro de Referência das Lutas Políticas
no Brasil (1964-1985), vinculada ao Arquivo Nacional.
Na entrevista a seguir ele comenta seu novo trabalho.
Portal Maurício Grabois: Professor, fale um pouco sobre
mais esse trabalho abordando a região onde atuou a Guerrilha do Araguaia.
Romualdo Pessoa: É o meu projeto de doutorado, no qual dou continuidade ao
estudo da região onde aconteceu a Guerrilha do Araguaia. Como a minha
dissertação de mestrado foi sobre a Guerrilha, publicada em livro, agora eu
tento entender como os camponeses viveram nessa região marcada pelo movimento
guerrilheiro. Busco exatamente compreender de que forma a repressão, que
permaneceu na região, se abateu sobre aqueles moradores. E com isso eu fui
investigando e descobrindo que boa parte dos conflitos que existiram ali teve a
terra como elemento principal da disputa, mas que por trás disso havia muito
mais. À medida que eu ia estudando a pesquisa documental a que tive acesso
— muitos documentos do Serviço Nacional de Segurança (SNI), do Centro de
Informações do Exército (CIE) e do Centro de Inteligência da Aeronáutica (Cisa)
—, fui percebendo que havia uma rede densa de informações e fui estabelecendo
uma relação com a maneira como a área estava sendo monitorada. A ação dos
militares se dava através do serviço que era desenvolvido pelos agentes de
informações comandados pelo major Sebastião Curió, que atuou na repressão à
Guerrilha.
PMG: Era uma ação articulada com o poderoso esquema de
poder montado na região pelo Curió?
RP: Sim. Depois da Guerrilha, o Curió criou um poder praticamente paramilitar,
que era escorado nas ações dos agentes do serviço de informações, o SNI, o CIE
e a Cisa, e em certa medida o Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Por
trás de cada um desses conflitos, portanto, havia a presença de agentes
monitorando, acompanhando, dando as indicativas e as coordenadas sobre quem
estava por trás deles. E sempre nesses relatos aparecia o receio desses
militares que comandavam os serviços de informações de que havia a presença de
remanescentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) com atuação muito próxima
aos camponeses. Havia, de fato, mas os objetivos eram outros.
Ao lado do PCdoB estavam os padres vinculados à Teologia da Libertação, das
Comunidades Eclesiais de Base, que faziam trabalho conjunto com os camponeses.
E isso incomodava os militares sobremaneira. Em seus relatórios eles
expressavam sempre que tanto os padres quanto os comunistas estavam
reorganizando o movimento guerrilheiro. Portanto, em toda a ação que gerou
assassinatos de camponeses em vários conflitos eu fui identificando que havia
um acobertamento muito forte desses órgãos de informações, pelo poder do Curió.
Esse aparato esteve presente nas eleições do Sindicato de Conceição do Araguaia
em um momento crucial, no começo dos anos 1980, quando estava surgindo uma
grande liderança, Raimundo Ferreira Lima, o Gringo, que foi assassinado. Logo
em seguida foi assassinado outro dirigente sindical, João Canuto, militante do
PCdoB. E assim sucessivamente. Aconteceu também com os padres Aristides Camio,
Francisco Gouriou e Josimo Moraes Tavares. Ou seja: os padres que atuavam ali
também estavam na lista dos marcados para morrer.
Mas o principal alvo, o que os militares mais temiam pela ação que desenvolvia
e pela organização que efetivava, inclusive resgatando antigos membros do PCdoB
que estavam praticamente perdidos depois de participar da Guerrilha, era Paulo
Fonteles. Na maioria dos documentos que eu tive acesso, ele era o nome que mais
apareceu. Havia um temor muito grande dos militares em relação à atuação e à
ação de Paulo Fonteles. E ele terminou sendo assassinado, em 1987.
Pode-se caracterizar esses acontecimentos como legado da
Guerrilha?
Sim. Toda a região adquiriu um poder de reação muito forte, de efetiva
participação dos camponeses. Muitos dos quais conviveram com os guerrilheiros e
estiveram lado a lado em suas roças. Muitos dos quais foram presos também. O líder
da revolta da comunidade dos Perdidos, em São Geraldo do Araguaia, em 1976, era
amigo dos guerrilheiros. Tinha a roça dele ao lado da dos guerrilheiros. Um dos
enteados dele se tornou militante do PCdoB. E havia também a presença de um
antigo militante do Partido que fora para lá como base de apoio dos
guerrilheiros, que era o Amaro Lins. Ele estava atuando ali na região dos
Perdidos e foi reencontrado por Paulo Fonteles.
Mais tarde Paulo Fonteles foi um dos responsáveis pela organização da caravana
dos familiares dos desaparecidos no Araguaia que percorreu a região em busca de
informações sobre seus parentes. Então, a figura de Paulo Fonteles é um
elemento marcante, forte, nesse período pós-Guerrilha. E, por isso, ele passou
a ser visado. O temor dos militares, presente em todos os documentos aos quais
eu tive acesso, era que ele estivesse preparado um novo movimento guerrilheiro;
quando, na verdade, claro, o que havia era uma luta intensa dos camponeses pela
manutenção de suas posses contra a grilagem, contra o poder dos grandes
fazendeiros que constituíam milícias, que contralavam pistoleiros e tudo mais.
Era, então, uma neurose dos militares injustificável.
Havia uma luta muito intensa ali. E nessa luta o PCdoB esteve presente, assim
como a Igreja com as Comunidades Eclesiais de Base. Mas a neurose dos militares
trazia consigo o fato de que a Guerrilha poderia estar sendo reorganizada. Por
trás de cada um daqueles assassinatos que aconteceram ali, por trás de cada uma
das grandes repressões, estava a Polícia Federal atuando ao lado de
pistoleiros. Eu tenho comigo, portanto, que boa parte dessas atuações não tinha
o objetivo de resolver os problemas do conflito de terras. Nem a atuação do
Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins (Getat), que foi criado para
isso, mas que não cumpria esses objetivos.
O objetivo era eliminar possíveis lideranças que se destacassem na região e que
poderiam constituir empecilhos às políticas que estavam sendo desenvolvidas
pelos militares. Principalmente pelo poder do major Curió, que controlou a
região da Guerrilha e depois abriu um braço de poder em direção à Serra Pelada,
que viveu sob seu domínio por muito tempo. Acredito que possa ser algo difícil
de ser comprovado, mas fácil de ser compreendido quando a gente analisa esses
documentos.
O senhor acha que essa neurose perpassou o tempo e chegou a casos como os
envolvendo o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST)?
É possível que sim. Porque a questão do MST e dos conflitos que aconteceram
ali, como o caso de Eldorado dos Carajás, têm a ver também com o esvaziamento
de Serra Pelada. Serra Pela, em um primeiro momento, foi um atrativo, serviu
para que os militares atraíssem posseiros para o sonho do ouro e tirassem eles
do meio dos conflitos. Só que quando o ouro se esgotou havia ali em torno de
cem mil pessoas e boa parte delas permaneceu na região. Tornaram-se
pistoleiros, foram invadir terras ou participar de acampamentos do MST.
Essas pessoas também passaram a ser monitoradas pelos órgãos de informações. A
ação repressiva que viria em consequência das ocupações, dos trabalhos que
foram sendo desenvolvidos pelos camponeses, tinha não só o objetivo de atender,
digamos, as pressões dos fazendeiros; era para conter explosões sociais em uma
região já marcada pelo fato de ter acontecido a Guerrilha do Araguaia. O receio
era ligado à estratégica que eles sempre tiveram para a Amazônia, que sempre
foi um elemento de preocupações dos militares dentro daquilo que se chama de
Doutrina de Segurança Nacional. A preocupação com as fronteiras e
principalmente com a defesa da Amazônia.
Soma-se a isso o fato de ali ao lado ter os maiores projetos de mineração do
Brasil, concentrações enormes de riquezas minerais e uma montanha de ouro que
ainda não foi completamente explorada. Nos dias de hoje ainda há embates,
muitos violentos, como os entre antigos mineradores por conta do uso de
máquinas no local, a exploração em grande escala. Como se vê, é uma região
complicada do ponto de vista da geopolítica. E os militares sempre tiveram essa
questão presente. Toda essa neurose, essa obsessão.
Não tem um aspecto positivo nessa visão geopolítica dos militares?
Olha, no aspecto do controle das fronteiras sim. O problema é que com a
Doutrina de Segurança Nacional ela gera uma concepção extremamente maniqueísta.
E dentro dessa visão da luta contra o inimigo externo e interno há sempre a
preocupação em conter o comunismo. Essa neurose foi construída tendo a
preocupação com a Amazônia, mas vendo o comunismo como seu inimigo principal. O
que do ponto de vista lógico, estratégico, e de quem de fato monitora a região
e tem interesse por ela, é completamente equivocado. É o inverso, o oposto; a
preocupação com aquela região e o seu monitoramente sempre se deu a partir dos
Estados Unidos.
O senhor acha que os militares hoje ainda têm essa neurose anticomunista, essa
propensão a se aproximar dos interesses norte-americanos?
Penso que não. Muito embora a Doutrina de Segurança Nacional ainda esteja
presente no imaginário dos militares. Não só brasileiros; essa doutrina fomenta
a política externa dos Estados Unidos. Mas hoje eu vejo de forma diferente. Até
o começo dos anos 2000, sim. Ainda estava bastante presente.
O senhor chegou até esse ponto na pesquisa?
O foco do meu estudo vai até mais ou menos o ano 2000. Constato que essa
neurose vai se enfraquecendo à medida que novas gerações de militares assumem e
aqueles que carregavam esses preceitos vão indo para a reserva. Tanto que o
foco de grande resistência às políticas progressistas adotadas no Brasil está
presente no Clube Militar, em áreas de reservas desse oficialato. O que não
quer dizer que não exista esse tipo de pensamento. Eles estão lá. Acredito que
não são dominantes como eram antes.
Isso foi muito ruim para a região. Porque eles acabaram adotando uma política
inversa àquela que planejaram inicialmente, na década de 1970, que era ocupar a
região com camponeses, com migrantes. Modificaram isso a partir do final da
década de 1980 e abriram a Amazônia para as grandes empresas, para os grandes
fazendeiros, para grandes conglomerados agropecuários e até para grandes grupos
financeiros. Bancos passaram a investir na Amazônia. Multinacionais, como a
Vokswagem, passaram a investir na Amazônia.
Atrás de lucros?
Aparentemente para ter controle sobre as terras; parte delas para a criação de
gado. A terra se mostrou infértil para a grande produção agrícola. Ela dá certo
para a agricultura tradicional. Mas não para essa grande agricultura que rompeu
o cerradão. Prevaleceu a criação de gado em enormes fazendas, de onde foram
expulsas quantidades muito grande de pessoas, antigos posseiros. Essa mudança
no foco da política por conta da neurose criada foi a responsável por
transformar o Sul do Pará e boa parte da Amazônia em uma terra de pistoleiros,
de grileiros. Uma terra sem lei, que tinha por trás o reforço da Doutrina de
Segurança Nacional, que transformou aquilo ali em um Frankstein. E que é
responsável pelo grande atraso existente até hoje, uma região em que as terras
estão nas mãos de grandes latifundiários.
Tem previsão para terminar o trabalho?
Acredito que em novembro faço a defesa da tese. Pretendo entregá-la no mês de
outubro para a banca e espero fazer a defesa em novembro para a obtenção do
grau de doutor.
A ideia é ter um segundo livro sobre o tema Guerrilha do Araguaia?
Na tese anterior eu trato da Guerrilha em si; fiz como dissertação de mestrado.
O objetivo agora é dar continuidade à produção anterior. O título da tese
provavelmente vai ser “Araguaia depois da Guerrilha — outra guerra”. Será
exatamente isso: esse olhar sobre a região tendo como foco a Doutrina de
Segurança Nacional, que vai impregnar a ação dos militares ali e como
consequência o surgimento dos conflitos, dos quais em alguns deles os
camponeses agiram de fato com tática de guerrilha. O que levou os militares a
imaginar ser o surgimento de novas guerrilhas, com os comunistas por trás. De
fato, os comunistas estavam por trás, assim como a Igreja progressista, mas no
apoio à luta dos camponeses por suas terras.
Não cabia mais a organização de guerrilha...
Não era esse o objetivo, até porque o Brasil já estava passando por um processo
de transição, com o apoio do PCdoB.
Mas em 1986 esses
remanescentes da espionagem, dos serviços de informações, ainda soltaram relatórios
dizendo que os comunistas estavam preparando uma nova guerrilha no Sul do Pará.
O que é inverossímil.
*Editor do Portal Maurício Grabois